Meu pai usava roth. Era uma espécie de dentadura desdentada. Eram fios de aço de postavam dentes falsos onde não havia mais os verdadeiros, dois ou três dentes, no máximo. Hoje acho que não existe mais este treco.
O Celinho usava um na arcada inferior. Sempre que queria implicar comigo e/ou minha irmã tirava aquele troço com dois dentes da boca. Fez isso com até certa constância até sair comigo e a Nora numa tarde em Angra, onde tínhamos uma casinha num lugar chamado Pontal, a 14 quilômetros da cidade.
Íamos pescar num rio que cortava o condomínio vizinho ao Iate Clube de Angra dos Reis (ICAR), que ficava a 200 metros de nossa meia-água no Pontal.
O pai descalço, eu e Norinha, de Havaianas, íamos quase até a foz do rio. O intercâmbio com as águas salgadas favorecia o aparecimento de peixes de águas marinhas que subiam o rio quando era maré cheia. Até robalos, peixes nobres e imunes a iscas presas em anzóis (pelo menos, às nossas), podiam ser vistos entre o mar de Pontal e o rio.
Antes que as águas estranhamente límpidas do rio abraçassem as igualmente estranhas águas turvas do mar, meu pai verificava se havia peixes na limpidez das águas mais fluviais do que salgadas. Percebendo a presença de cardumes ou de algum mais graúdo, ainda que só, meu pai preparava a tarrafa – uma rede salpicada de chumbos nas extremidades e com uma grossa linha de náilon a ser fixada num dos pulsos – e a atirava com estilo. A bicha caía bem aberta e se os peixes insistissem em não fugir velozmente do raio de ação da rede, eram capturados.
A técnica de bem atirar uma tarrafa era simples. O sujeito prendia na boca um dos pesinhos, arregaçava num dos braços parte substancial da rede e a mantinha presa no pulso do outro braço.
Depois, era só lançar a rede o mais aberta possível, balançando o tronco para frente. No momento em que atirava a rede, o pescador tinha quase que cuspir o pesinho da boca, sob o risco ou de ir junto com a rede ou retê-la e abortar o lançamento, ameaçando abalar a dentaiada toda com o tranco.
Apesar da curta envergadura – Celinho era uns cinco centímetros mais nanico do que eu, baixinho no meu 1,65 m – ele atirava bem a tarrafa. Eu ia com uma fieira – geralmente feita apenas de um ramo de planta, retirados quaisquer resquícios de folhas, liso, com apenas um talo, na base. Norinha vinha com um balde d’água, pesado, mas uma prisão muito menos dramática do que uma fieira. Nesta, o peixe é retirado para fora da água e tem o ramo transpassado pela boca saindo pela guelra, aquela parede lateral, próxima ao fim da cabeça, por onde o bicho retira o oxigênio da água. Um expediente cruel, ao qual eu era completamente imune aos 9, 10 anos de idade.
Celinho tinha jogado a rede no rio apenas duas vezes. Eu recolhera três azarados xereletes à fieira, resultado da primeira tentativa de meu pai com a tarrafa. Norinha tivera mais sorte do que eu: três xereletes, um peixe nobre – um namorado, ainda que filhote – e um siri, azulado e arisco, habitavam o balde de minha irmã.
Agora, a terceira braçada de rede n’água seria
por mim coletada. O Celinho preparou a rede com sua habitual destreza. Peso da tarrafa entre os dentes, o arremesso pronto para ser feito e zzzááássss!!!
A rede foi fechada ao rio e em seguida, meu pai cai na água, de pé mesmo, que estilo ele tinha para jogar tarrafa. Dentro d’água, mais parecia um lagarto do deserto – um desses bichos esquisitos que só é encontrado em paragens idem, como o Saara.
Ao tibum estabanado do Celinho, eu e minha irmã, surpresos com inusitado mergulho, nos pusemos a berrar:
-- Paiê!!! Papai!!!
No que ao emergir à tona e passar uma das mãos no rosto e na carapinha, no raso trecho onde mergulhara – a mão esquerda estava ocupada segurando a tarrafa, ficamos sabendo o que motivara aquele mergulho desastroso e a bisonha braçada de rede.
-- Puta que pariu!! -- meu pai nunca se furtou a soltar sonoros palavrões, fosse diante de quem fosse, “desopila o fígado”, respondia ele a eventuais reprimendas – Eros, recolhe com cuidado a tarrafa. Quando joguei a rede, meu roth foi junto!! Tentei refugar – não, não usou este termo, desconhecido da população até o cavalo de nosso estelar Rodrigo Pessoa se negar a pular um obstáculo, anos e anos mais tarde... -- Tentei abortar o lançamento da tarrafa, quando senti que o roth tinha prendido na rede, mas foi impossível. Pulei n’água para tentar não perdê-lo, evitando que a rede caísse aberta.
Eu abri a tarrafa toda e nada de roth. De estranho, só a presença de um minúsculo caranguejo , dono de uma pinça esquerda gigantesca, comum na região. Celinho estava n’água quando viu o caranguejo de longe.
-- Nora! Eros! O roth tá fugindo!! Peguem-no!!! – atinando quase que imediatamente sobre a asneira que soltara.
Devolvi tirando uma casquinha:
-- Ô pai, seu roth agora anda? É só um caranguejinho...
Moral da história: Celinho saiu d’água, puto dentro da indefectível sunga azul. Sem os dois dentes postiços, deu por encerrada a pescaria. Com os poucos peixes que Celinho pegara, não valia à pena limparmos sete peixes pequenos e cozinharmos um único siri.
Minha irmã libertou os peixes que, intactos, rapidamente tomaram rumos diferentes, inclusive o siri, que fugira se defendendo. Pinças prontas a dilacerar futuros captores.
Quanto aos meus três xereletes, enfileirados naquela selvagem e já naquela época, embora o termo ainda não estivesse em voga, politicamente incorreta fieira, estavam mortinhos da silva.
Não estou certo de nunca mais ter recolhido peixes em fieiras. Mas tenho certeza de que o Celinho voltou a usar roth. E embora não tenha riscado a tarrafa de sua vida, Celinho passou a ter muito cuidado ao lançar a rede atrás de peixes indiferentes a iscas. afinal, ia ser um mico danado se ele perdesse o roth pescando junto a amigos.
http://www.youtube.com/watch?v=ZFKgOK9aZN4
farofa de miúdos
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
domingo, 31 de julho de 2011
"só não mastigo tijolo/porque me estraga os dentes" ("FAROFA-FA", de Mauro Celso)
Este é o terceiro blog que escrevo. Pensei num título mais nobre, como ”Rebarbas imemoriais” ou “Retalhos de memória”. Também pensei em “Mistura e manda”, mas iria remeter a um desleixo que, por felicidade ou pretenciosa consciência, eu não trago nos meus textos.
Por abrigar textos “curtos” e não epopeias quilométricas, e não se pautar pelo tom acre ou doce da narrativa, apresento-lhes “Farofa de miúdos”. Bem, tendo tempo e saco, dá uma espiada e se suas paciência e generosidade forem realmente imensas, poste alguma coisa no blog.
Tchau. Beijos nas meninas, abraços nos caras e queijo para todo mundo.
Por abrigar textos “curtos” e não epopeias quilométricas, e não se pautar pelo tom acre ou doce da narrativa, apresento-lhes “Farofa de miúdos”. Bem, tendo tempo e saco, dá uma espiada e se suas paciência e generosidade forem realmente imensas, poste alguma coisa no blog.
Tchau. Beijos nas meninas, abraços nos caras e queijo para todo mundo.
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